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Joost de Valk afasta-se do FAIR: o que aconteceu ao projeto de repositório federado para plugins e temas WordPress
Beatriz Tavares
Beatriz Tavares 26 dEurope/Budapest February dEurope/Budapest 2026 · 7 min de leitura

Joost de Valk afasta-se do FAIR: o que aconteceu ao projeto de repositório federado para plugins e temas WordPress

Joost de Valk (Yoast SEO) anunciou que vai deixar de participar no FAIR, um projeto sob a Linux Foundation que pretende criar um repositório independente para distribuição de temas e plugins – com uma abordagem federada (vários repositórios alojados de forma independente, mas capazes de funcionar em conjunto). A saída de uma das figuras mais visíveis associadas ao FAIR não significa, por si só, o fim do projeto, mas expõe um problema que tem travado a iniciativa desde o início: falta de apoio financeiro e, sobretudo, falta de vontade do ecossistema em assumir o custo e o risco político.

O que é o FAIR (e porque surgiu em 2025)?

O FAIR foi lançado a meio de 2025 na sequência de uma crise que tornou evidente uma fragilidade antiga do WordPress: a dependência do repositório oficial do WordPress.org (e dos respetivos serviços de atualização) como um ponto central único para distribuição de software.

O gatilho foi uma sequência de decisões de Matt Mullenweg que tiveram impacto direto na cadeia de distribuição:

  • Substituição do plugin Advanced Custom Fields (ACF), da WP Engine, no repositório oficial por uma versão criada pelo próprio (um fork, ou seja, uma cópia/derivação do projeto original).
  • Bloqueio de acesso da WP Engine e de muitos dos seus clientes ao repositório de temas e plugins do WordPress.org e aos serviços associados de updates.

A reação foi imediata: críticas públicas, discussão sobre governança e, do ponto de vista puramente técnico-operacional, uma constatação desconfortável para quem mantém sites em WordPress em produção – existe um single point of failure na distribuição e atualização de componentes essenciais.

Daí nasceu o movimento para descentralizar a distribuição de plugins e temas, não com um “segundo WordPress.org”, mas com uma federação de repositórios independentes e alojados por entidades diferentes. O FAIR foi a materialização dessa ideia, e Joost de Valk teve um papel central na explicação do problema, na mobilização inicial e na criação do projeto com um modelo de governação neutro.

Porque é que Joost de Valk saiu do FAIR?

O anúncio da saída foi acompanhado de um motivo muito concreto: o projeto não conseguiu reunir suporte financeiro suficiente para se tornar viável como iniciativa com capacidade de execução à escala necessária.

Nas conversas que a equipa teve com empresas de alojamento (hosting) e outros “players” grandes do ecossistema, a conclusão foi recorrente: não querem investir neste tipo de solução. E não é por estarem satisfeitos com o estado atual – a resistência vem do que o investimento implica na prática: compromisso, custo, entrar em tensão política e assumir risco.

In recent months, we’ve had many conversations with hosting companies and other large ecosystem players. What became increasingly clear is this: they do not want to invest in this kind of solution. Not because they love the current situation. Not because they agree with everything that’s happened. But because investment means commitment. It means cost. It means stepping into political tension. And most of all, it means risk.

Joost de Valk

Embora a referência a “tensão política” e “risco” não detalhe nomes, é difícil separar este tema do conflito entre Matt Mullenweg e a WP Engine. Para empresas de hosting, o custo de se posicionarem (ou de serem percecionadas como tomando partido) pode traduzir-se em consequências reais de negócio, com valores em jogo muito elevados. Num cenário assim, torna-se mais compreensível – ainda que frustrante – que exista hesitação em financiar uma alternativa que mexe diretamente na distribuição de software do ecossistema.

A posição oficial do FAIR: o projeto continua (e não é “só WordPress”)

Depois da saída de Joost, o FAIR publicou uma declaração a reconhecer a decisão e a reforçar que o financiamento tem sido um problema persistente. Ao mesmo tempo, clarificou um ponto importante: o FAIR não foi desenhado como uma solução exclusiva para WordPress.

A ambição é mais ampla: resolver problemas de software supply-chain security (segurança da cadeia de fornecimento de software), distribuição descentralizada, confiança e verificação – desafios transversais à indústria e cada vez mais urgentes.

The problems FAIR solves are not WordPress-specific. Supply chain security, decentralized distribution, trust and verification are industry-wide issues and they’re becoming more urgent, not less. The EU’s Cyber Resilience Act arrives in December 2027 and when it does, software supply chain integrity becomes a regulatory requirement — demonstrating provenance, security scanning, and traceable update mechanisms. FAIR’s architecture is built with exactly this kind of trustworthiness in mind. We haven’t given up on WordPress. We still welcome contributors and ecosystem leaders to join us so we can continue advancing the work.

FAIR Project

O papel do EU Cyber Resilience Act (dezembro de 2027) no “timing” do FAIR

Um detalhe relevante nesta declaração é a referência direta ao EU Cyber Resilience Act, com entrada em vigor em dezembro de 2027. A partir daí, integridade da supply chain passa a ser requisito regulatório – incluindo a capacidade de demonstrar proveniência (provenance), fazer security scanning e manter mecanismos de atualização rastreáveis (traceable update mechanisms). O FAIR posiciona a sua arquitetura como alinhada com este tipo de exigências de confiança e verificabilidade.

O que esta saída muda para quem desenvolve e opera WordPress

Na prática, a saída de Joost tende a ter impacto mais na perceção e na capacidade de mobilização do que numa decisão técnica imediata. Um projeto deste tipo precisa de massa crítica: financiamento estável, entidades dispostas a alojar/operar repositórios e um conjunto de participantes com influência suficiente para criar tração.

Sem uma figura de alto perfil ativa na comunidade WordPress, o FAIR pode avançar num estado mais discreto ou “reduzido”, pelo menos no curto prazo. Ao mesmo tempo, o próprio contexto que levou à criação do FAIR (e a discussão sobre pontos únicos de falha na distribuição) não desapareceu. Se a tensão em torno do conflito Mullenweg–WP Engine diminuir, pode surgir mais abertura para apoio institucional e participação da indústria de hosting.

O conceito-chave a reter

O problema que o FAIR tenta atacar não é “ter outro diretório de plugins”, mas sim reduzir dependências críticas na distribuição e nos updates, criando mecanismos descentralizados com confiança e verificação – algo que ganha peso com exigências regulatórias como o EU Cyber Resilience Act.

Resumo

  • O FAIR surgiu a meio de 2025 para endereçar a fragilidade de um único ponto de falha no ecossistema WordPress: o repositório e serviços de update do WordPress.org.
  • O contexto incluiu o fork do ACF no repositório oficial e o bloqueio de acesso da WP Engine e de muitos clientes a temas/plugins e updates.
  • Joost de Valk anunciou que se afasta do FAIR, apontando falta de apoio financeiro e ausência de investimento por parte de hosts e grandes players, por custo, compromisso e risco político.
  • O FAIR reconhece as dificuldades de financiamento, mas afirma que o projeto continua e que o seu foco é mais amplo: supply-chain security, distribuição descentralizada, confiança e verificação.
  • O projeto destaca o EU Cyber Resilience Act (dezembro de 2027) como fator que tornará a integridade da supply chain um requisito regulatório (proveniência, scanning, updates rastreáveis).
Imagem ilustrativa do WordPress FAIR repository
Forrás: Search Engine Journal

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